Fotos: cortesia de João Peixoto e d’ A Oficina
A três anos de distância da entronização e consagração de Guimarães como Capital Europeia da Cultura, uma pessoa pergunta-se qual poderá vir a ser, então, por hipótese, o elenco do Guimarães Jazz 2012, já que, este ano, é de verdadeiro luxo que deve falar-se ao referir o conjunto de personalidades e grupos que compõem a presente edição.
Se não acreditam, vejam lá quem já tocou, até ao momento em que escrevo, no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor, só na primeira parte do festival, realizada entre 12 e 15 deste mês:
1) “Kind of Blue @ 50” (12.11.09) – Jimmy Cobb So What Band, com Jimmy Cobb (bateria), Wallace Roney (trompete), Javon Jackson (sax-tenor), Vincent Herring (sax-alto), Larry Willis (piano) e Buster Williams (contrabaixo);
2) Hank Jones Trio (13.11.09) – Hank Jones (piano), George Mraz (contrabaixo) e Willie Jones III (bateria);
3) Branford Marsalis Quarteto – Branford Marsalis (saxofones), Joey Calderazzo (piano), Eric Revis (contrabaixo) e Justin Faulkner (bateria);
4) Projecto TOAP – Ohad Talmor (saxofones), Bernardo Sassetti (piano), Demian Cabaud (contrabaixo), Dan Weiss (bateria).
Ao consultar-se esta lista de concertos, percebe-se logo como alcançaram um cunho eminentemente celebratório os primeiros dois: a comemoração do 50º. aniversário da edição de uma obra-prima de toda música; e a justa homenagem a um pianista maior entre os maiores na história do piano-jazz e que nem de longe foi dos que mais visitou palcos portugueses ao longo da sua ilustre carreira.
Não é nada fácil posicionar-se o crítico ou o ouvinte iniciado perante os resultados do primeiro concerto: por um lado, ninguém incorreria no erro crasso de exigir que os músicos presentes em palco – mesmo o próprio Jimmy Cobb (hoje com 80 anos de idade e único sobrevivente do glorioso sexteto que em 1959 gravou Kind of Blue) – se aproximassem sequer da áurea criativa que ficou a marcar uma tal gravação; por outro lado, difícil ou mesmo impossível terá sido o permanente exercício de afastamento, por parte do ouvinte atento e informado, do peso da memória que inevitavelmente o liga àquela exemplar gravação.
Pelo que, arredadas quaisquer tentações absurdas de fazer comparações deslocadas, só há que nos mostrarmos altamente reconhecidos pela comemoração da efeméride e, no plano musical, salientar a genuinidade inteira e certas passagens em concreto do jogo percussivo do sempre elegante Jimmy Cobb (é bem verdade que quem sabe nunca esquece!), a tranquilidade olímpica com que Javon Jackson (habitualmente músico de poucos rasgos) evocou, por vezes com surpreendente apropósito, o ”espírito” de Coltrane e a boa forma de Vincent Herring, talvez o único que, passe a aparente contradição (e ao contrário de um Wallace-Roney-eterno-clone-de-Miles), seguindo a par e passo o traço musical de alguns mestres no seu instrumento (como o óbvio “Cannonball” Adderley!) ali esteve a ser verdadeiramente ele próprio, de uma forma competente, descomplexada e até a espaços inspirada!
Na noite seguinte, a simples entrada em palco de um mestre como Hank Jones seria suficiente para, através de prolongados aplausos, lhe agradecermos o muito que nos deu ao longo de um trajecto musical repleto de momentos únicos, quer como solista emérito quer como companheiro indispensável de uma série imensa de músicos com os quais tocou em actuações públicas ou em centenas e centenas de gravações.
Escolhendo, como só dele se esperaria, um repertório eclético e de imenso bom gosto (e, em alguns casos, nada óbvio) que o levou a viajar por um cancioneiro inesgotável como o norte-americano (mesmo quando saído da pena de talentosos “absorvidos”, como Bronislav Kaper) ou por certas peças-chave do período do jazz que ficou a marcar a sua entrada na história, Hank Jones deu mostras de uma invejável energia nas várias formas de atacar o teclado e liderar um trio e de boa disposição no contacto com o público, sempre impecavelmente apoiado por George Mraz, um dos suportes mais infalíveis que se conhecem a abraçar um instrumento tão indispensável a este contexto instrumental como é o contrabaixo.
Ficaram assim a pontuar a noite a beleza de Lament (J.J.Johnson), a articulação bebop de Au Privave (Charlie Parker), a poderosa mão esquerda nas acentuações dos graves em Recorda-Me (Joe Henderson), o lado mais castiço e bluesy de Coming Home Babe (Bob Dorough), Lady Luck (Thad Jones-Frank Wess) ou Blue Minor (Sonny Clark), a beleza ondulante e sensual de Speak Low (Kurt Weil) e, em geral, a delicadeza de um som e a leveza de um touché que, pesem embora os muitos anos do mestre, foram emergindo, singulares e inconfundíveis.
A penúltima noite desta primeira parte do Guimarães Jazz assinalaria a passagem pelo palco do Centro Cultural Vila Flor do quarteto do saxofonista Branford Marsalis, o menos acomodado membro de um clã de nomeada bem instalado no jazz.
A continuada espera de, pelo menos, um segundo golo contra a Bósnia, fez-me entrar no auditório a meio da segunda peça da noite, que ainda reconheci como sendo Teo de Thelonius Monk; mas não dava ainda para perceber imediatamente como estava a correr a função. Terá sido então a sequência das três peças que se seguiram que me fez compreender estarmos em noite repleta de algumas inevitáveis confirmações e outras surpreendentes revelações.
Chamar, alguém, a isto que se estava a ouvir, jazz mainstream, seria voltar a insistir em arremedos de irresponsável patetice, tão evidentes foram ao longo da noite os sinais de modernidade que o líder do quarteto quis deixar grudados a este concerto. Desde logo, por exemplo, na movimentada e fragmentada conjugação de ideias temáticas em In The Crease (B.Marsalis), peça na qual o rigor do arranjo instrumental para o colectivo era constantemente seccionado e subvertido pelos contrastes dos padrões rítmicos trocados entre todos os elementos do grupo, dando origem ao fascinante cruzamento de frases só aparentemente desconexas entre si e chegando mesmo à livre irrupção de verdadeiras revoadas aleatórias produzidas por todos os envolvidos.
Mas já antes e depois, dois originais de Joey Calderazzo e do “ausente” Jeff Watts – a saber: Blossom of Parting e Sir Roderick – haviam tornado clara não só a reafirmada vertente de compositor do grande baterista (mais tarde confirmada no gradual crescendo de intensidade emocional de Sammo) como a noite transcendente que nos proporcionaria a espontânea erudição e criatividade do pianista do quarteto, em verdadeiro “estado de graça” e, sem dúvida, o protagonista musical da noite.
Por último – e para que não levássemos demasiado a sério o concerto (!) – foi notório o aceno de simpatia e o surpreendente golpe de rins de Marsalis na sua vontade de regressar ao terreno popular que também tanto o alimenta musicalmente, com uma insólita e assumida citação de Foi Deus (essa peça-chave de Alberto Janes para Amália) e com o imenso gozo da descontraída e dançável evocação de St. Louis Blues (W.C.Handy), com que a noite terminou em beleza.
A encerrar a primeira sequência de concertos deste Guimarães Jazz, a actuação de um quarteto expressamente reunido em palco para dar continuidade às co-produções discográficas todos os anos produzidas em parceria pelo festival e pela editora independente portuguesa Tone of a Pitch, constituiu porventura a mais conseguida e a mais absorvente das
três quatro experiências até hoje realizadas, muito embora os quatro músicos se tenham “musicalmente” reunido pela primeira vez durante a própria tarde para “trocarem partituras e ideias” em relação à escolha e à estratégia de repertório a seguir nessa mesma noite.
Não necessariamente pelo carácter internacional do quarteto em questão – constituído por um argentino (radicado em Portugal) no contrabaixo, um português no piano, um suiço francófono (radicado nos EUA) no sax-tenor e um norte-americano na bateria – foi a total abertura estética às músicas envolventes do próprio jazz que mais impressionaram no referido concerto.
O destaque principal vai, naturalmente, para uma peça de fundo, Tabla Suite (se bem entendi o título), composta por Ohad Talmor e tendo como referência explícita as tablas, um dos instrumentos de percussão mais expandidos na criação da música clássica e popular hindú e que constituiu, no decorrer do concerto, talvez o momento de maior relevância para o excepcional baterista que é Dan Weiss, também ele um apaixonado pela percussão e pela música daquelas paragens e há quatro anos estagiando e aprendendo com o seu “guru” Pandit Samir Chaterjee.
Entoando onomatopeias ritmicamente muito complexas e de grande irregularidade métrica, Dan Weiss reproduzia-as de imediato na percussão virtuosística e incisiva de tambores e címbalos, transmitindo ao resto do grupo os padrões rítmicos sobre os quais as partes previamente escritas ou depois improvisadas se “encaixavam” e apoiavam.
Mas o concerto começara com algumas peças de configuração muito diversa, desde Casa de Madeira Branca (Demian Cabaud) até One Day Early (Dan Weiss): a primeira uma valsa de contornos delicados e sensíveis, bem por dentro do jazz e com Sassetti, Talmor e Cabaud improvisando de um modo mais “convencional”; e a segunda despoletada por uma intervenção a solo de Weiss, verdadeiramente irresistível e incomparável na forma de “atacar” os dispositivos de percussão e, sobretudo, de “pensar o tempo”. Em boa verdade, se, com Branford Marsalis, tiveramos um exercício sobre a descontinuidade da frase musical, com Dan Weiss e seus compannheiros de palco tínhamos agora um exercício sobre a descontinuidade do tempo jazzístico, mais tarde de novo retomada, por exemplo, em Seven Things, essa admirável e exigente paráfrase de Ohad Talmor sobre os acordes de All The Things You Are (Cole Porter).
Terminava assim a primeira parte do Guimarães Jazz deste ano, antevendo-se já como inteiramente promissores os derradeiros quatro concertos a iniciar, já na quarta-feira 18, a segunda e última parte deste evento.
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